sexta-feira, 29 de abril de 2016

'Está muito claro que é um golpe de Estado', diz Nobel da Paz argentino sobre impeachment de Dilma.

No Senado, Adolfo Pérez Esquivel reafirmou o que disse em encontro com a presidente em Brasília; oposição reagiu e presidente da sessão, Paulo Paim, mandou tirar a palavra 'golpe' do registro escrito da fala


O vencedor do prêmio Nobel da Paz em 1980, o ativista argentino Adolfo Pérez Esquivel, se reuniu nesta quinta-feira (28/04) com a presidente do Brasil, Dilma Rousseff, no Palácio do Planalto. Ele manifestou apoio à mandatária e afirmou que o processo de impeachment contra Dilma se trata de um “golpe de Estado”.

Está muito claro que o que se está preparando aqui é um golpe de Estado encoberto, o que nós chamamos de um golpe brando”, disse Pérez Esquivel à imprensa após o encontro. “Seria um retrocesso muito grave para o continente. Sou um sobrevivente da época da ditadura [militar na Argentina, 1976-1983], nos custou muito fortalecer as instituições democráticas. Aqui [no Brasil] se está atacando as instituições democráticas”, afirmou.

Pérez Esquivel declarou que foi a Brasília para prestar “solidariedade e apoio para que não se interrompa o processo constitucional do Brasil”. Ele traçou um paralelo entre a atual situação política brasileira e as destituições dos então presidentes hondurenho Manuel Zelaya, em 2009, e paraguaio Fernando Lugo, em 2012. “Agora, a mesma metodologia, que não necessita das Forças Armadas, está sendo utilizada aqui no Brasil”. Segundo Pérez Esquivel, países “que querem mudar as coisas com políticas sociais” se tornam alvo de investidas da oposição a fim de “interromper o processo democrático”.

Pérez Esquivel também fez um pronunciamento no plenário do Senado, onde pediu para “que se respeite a continuidade da Constituição, do direito do povo de viver na democracia”. “[Quero] simplesmente lhes dizer que, neste momento, mais do que os interesses partidários estão os interesses do povo do Brasil e de toda a América Latina”, declarou.

Oposição protesta contra o discurso 
Após a fala de Pérez Esquivel, membros da oposição protestaram contra o uso da palavra “golpe” e contra o pronunciamento de um estrangeiro no plenário. O senador Ataídes Oliveira (PSDB-TO) solicitou que o discurso do Nobel da Paz fosse retirado das notas taquigráficas da sessão. Ronaldo Caiado (DEM-GO) afirmou que o discurso “foi premeditado” e se tratou de “uma estratégia” do PT. No Twitter, o senador do DEM disse que “foi dada a palavra [no Senado] a um senhor simpático à política bolivariana”. 

Diante das reclamações, Paulo Paim (PT-RS), que presidia a sessão e convidou Pérez Esquivel a se dirigir ao Senado, determinou que a palavra “golpe” fosse excluída dos registros. Paim afirmou que havia concedido o espaço a Pérez Esquivel por “gentileza” e sob a condição de que o argentino não tratasse em detalhes do processo de impeachment. 

Entendo que isso [discurso de Pérez Esquivel] cause urticária naqueles que são oposição. Estão aí pesquisas de opinião de que a população não aceita que o conspirador-mor assuma”, disse o senador Humberto Costa (PT-PE), líder do governo no Senado, em meio às reclamações, se referindo ao vice-presidente Michel Temer. 

A versão em português do jornal argentino Clarín publicou na última terça-feira (26/04) uma entrevista com Pérez Esquivel na qual ele manifesta apoio à presidente brasileira. “Quando começou o processo de desestabilização do governo Dilma foi um espelho do que aconteceu em Honduras e Paraguai. Primeiro, houve um trabalho da grande imprensa de demolição da credibilidade dos governos. Esta ‘falta de credibilidade’ deu pé a uma oposição para desestabilizar o governo e derrocá-lo. Essa é uma combinação que se dá com o poder Judiciário, setores parlamentares, empresariado e oposição política de maneira geral para demover o governo. Foi assim, por exemplo, com o governo de Manoel Zelaya em Honduras. Os golpes de Estado já não precisam do Exército”, disse ele.

Pérez Esquivel afirmou que a ascensão das forças políticas de direita na América Latina, como no Brasil, ocorre por se tratar de um ciclo. “Acredito que os países progressistas ficaram parados em políticas midiáticas. Não tiveram a capacidade de construir a curto e médio prazo”, disse, acrescentando que é necessário que a esquerda realize uma autocrítica.

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