segunda-feira, 25 de abril de 2016

E o ódio?


Nos últimos dois ou três anos, e mais ainda nos últimos meses, tenho ouvido com frequência a palavra “ódio”, relacionada às convicções políticas dos brasileiros. Uns dizem que as elites odeiam os pobres, e, por tabela, o governo que os ajuda e protege. Outros dizem que são os governistas e seus apoiadores que fomentam o ódio na sociedade, em um jogo chamado “nós contra eles”. Ou “eles contra nós”, expressão talvez mais adequada para quem se pretende vítima.

Toda essa conversa sobre ódio acabou por gerar apreensão, ou mesmo temor, à medida que manifestações de rua voltaram a acontecer no país. Manifestações contra os que ocupam o governo federal, manifestações a favor.

O auge do receio de que o ódio descambasse para a violência física chegou com a sessão da Câmara dos Deputados, do dia 17 de abril deste ano, na qual os parlamentares votariam pela autorização ou não para que o Senado abrisse o processo de impeachment.

No país inteiro, em várias cidades, haveria manifestações simultâneas de grupos pró e contra o impeachment. Em Brasília, símbolo maior dessa divergência, ergueu-se um muro, na verdade, três cercas, que dividiriam a Esplanada dos Ministérios ao meio, entregando o lado sul aos apoiadores do impeachment e o lado norte aos contrários à abertura do processo.

Apesar desse cenário, e de toda a tensão provocada por uma longa e agitada sessão da Câmara dos Deputados, o que se viu foi um domingo de muita paz!

Enquanto os parlamentares faziam as mais diversas - e, às vezes, esquisitas - homenagens, antes de proferir o voto SIM, ou os mais acalorados protestos, antes de emitir o voto NÃO, a grande maioria dos brasileiros estava em casa, assistindo a tudo pela TV. Ou nas ruas, também acompanhando, através de telões, animados por movimentos já conhecidos, tanto por um lado como pelo outro.

Mas, o que havia de comum - entre um grupo e outro, e entre os que estavam em casa e os que estavam nas ruas - era que todos aguardavam a soberana decisão dos que votavam. Parecia prevalecer o consenso de que, de acordo com a Constituição Brasileira, aqueles homens e mulheres, apesar da flexibilidade ideológica e das dificuldades no uso do vernáculo, estavam legitimados para o ato que praticavam.

Ecoava, é fato, o bordão “não vai ter golpe”, dentro e fora do parlamento. A presidente, candidata a ré no processo de impeachment, havia declarado reiteradas vezes que se tratava de um golpe de Estado. Não obstante, ela havia apresentado sua defesa, inclusive recorrendo ao Supremo Tribunal Federal nesse sentido. Os deputados que a apoiavam participaram ativamente da votação e dos debates que a antecederam.

Imagino que, se acreditassem mesmo na existência de um golpe em curso, nem a presidente teria se dado ao trabalho de apresentar defesa, nem tampouco os parlamentares se ocupariam de participar do processo. Isto seria legitimar uma farsa.

Assim, a referência a um suposto golpe acabou tomando o aspecto de recurso retórico. A votação prosseguiu, e, à medida que o resultado se definia, o grupo “derrotado” foi se retirando, deixando transparecer decepção, tristeza e algumas lágrimas. O grupo “vencedor” também se retirou aos poucos, demonstrando contentamento, mas sem exageros eufóricos.

No fim das contas, talvez cada um carregasse, no seu íntimo, a razão das aspas postas nas palavras “vencedor” e “perdedor” aqui escritas: a possibilidade de todos terem ganho, ou todos terem perdido, com o resultado proclamado; e a esperança de que o futuro traga a resposta a essa dúvida o mais rapidamente possível.

E o ódio?
O ódio deve estar por aí, no coração de algumas pessoas infelizes, que precisam dele para alimentar o próprio espírito. Gente que não sabe conviver com as diferenças, e vê inimigos em tudo que não é espelho.

Porque o ódio não é como uma raiva passageira, ainda que a raiva às vezes leve pessoas comuns a se agredirem por uma vaga em um estacionamento. O ódio é mais que isso. Ele é, como diz um dicionário, um rancor profundo e duradouro.

O ódio é cruel, destruidor. Pode ter como alvo uma pessoa, um grupo ou um povo inteiro, como registra a história. Talvez haja ódio no coração de gente que usa o pretexto do esporte para formar grupos uniformizados e atacar quem prefere torcer pela equipe adversária.

Não era o caso daquelas pessoas, exibindo suas cores verde-amarelo ou vermelho, naquela tarde do dia 17 de abril de 2016, pelas ruas do Brasil.

Outros momentos tensos virão. Uma ou duas votações no Senado estão previstas.

Se a tensão servirá para alimentar o ódio, fazendo-o crescer e se generalizar, depende de como se comportarão as lideranças políticas, as autoridades públicas, os controladores dos meios de comunicação… E cada um de nós, cidadãos, brasileiros e, sobretudo, seres humanos.

Por Marcos Mairton da Silva

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