domingo, 23 de agosto de 2015

Justiçamento.

A substituição das instituições de promoção da justiça pela ação da sociedade.

Por Ely John Kretli Pimenta

Diante da violência endêmica que assola o Brasil, considere e comente o caso que segue.

Uma criança de, aparentemente, 05 anos de idade é encontrada agonizando em um terreno baldio, após vizinhos ouvirem gritos e choros. Há sinais evidentes de abuso sexual e tortura, uma vez que o órgão genital da criança apresenta elevado grau de hemorragia, o crânio tem sinais profundos de traumatismo (levando a crer que o autor do crime tentou matar a criança batendo sua cabeça contra o meio-fio), o frágil corpo infantil está coberto de hematomas, assim como seu rosto. O crime havia acabado de ser consumado, sendo por pouco caso de flagrância.

Alguém afirma ter visto um suspeito correndo, provavelmente evadindo-se do local do crime, no que leva os presentes a iniciarem uma busca frenética para capturar essa pessoa. Com paus, pedras e outros objetos, um grupo de pelo menos 20 pessoas correm e alcançam o elemento que, segundo aquele que havia visto atitude suspeita, tinha todas as características do suspeito.

O rapaz ainda está correndo quando um dos perseguidores acerta-o com uma paulada na cabeça. O resto do grupo logo em seguida se aproxima. Há muito sangue na roupa e mãos do homem. Isso era a prova que o grupo precisava para ter certeza de que ele era quem acabara de cometer aquela atrocidade. Os mais de 20 ali presentes, homens, mulheres e até crianças se unem para justiçar aquela pobre criança. O homem desprezível está cercado. Ele grita e tenta falar, no que é subitamente calado com golpes na face.

O homem deitado no chão é alvejado com pedras, socos, chutes e pauladas. Alguém amarra pés e mãos, e então, levam-no a praça pública. Há pessoas de longe olhando, outros até filmam, apenas uma senhora liga às 22:47 para a Delegacia de Polícia e para a Polícia Militar explicando que se tratava de um linchamento. A multidão cresce e toma proporções alarmantes. Mais gente se une para vingar a crueldade praticada horas atrás.

Agora são 23:31 e a justiça ainda está sendo feita. Os gritos exigindo a morte daquele que já estava semi-morto ao chão não cessam. A multidão está revoltada. O homem já está nu. Alguém se dispõe a castrá-lo ali mesmo. Aparentemente, trata-se de um amigo inconformado da família da vítima. O homem que já desfalece ao chão tem sua sentença de morte executada com vários golpes na cabeça com um pé-de-cabra. O homem morre às 00:15. A polícia chegou 20 minutos antes mas nada pode fazer, por conta da multidão enfurecida.

Dois dias depois, amigos do criminoso vão até a Delegacia para informar seu desaparecimento, pois não havia chegado em casa e tão pouco comparecido no trabalho ou na faculdade. Em depoimento perante a autoridade policial, o grupo de amigos relataram que não se tratava de um criminoso, e sim de um estudante de Direito que havia passado a noite toda, naquela data, na biblioteca da faculdade estudando para a prova de Direitos Humanos que faria no dia seguinte (informação, inclusive, confirmada pela polícia com a análise das câmeras de segurança da faculdade). Ele corria naquela hora, relata os amigos, para não perder o ônibus que já se aproximava logo à frente.

Se perdesse o transporte, o excelente aluno de Direito só poderia voltar pra casa 01 hora mais tarde, tendo em vista que da faculdade para sua casa levava, no mínimo, 45 minutos. Bernardo, o suposto criminoso, queria chegar logo em casa para dormir e estar “inteiro” para o trabalho na manhã seguinte e para a prova à noite, disse os amigos em prantos.

Ele não voltou para casa, não ficou inteiro, não foi trabalhar e tampouco, foi fazer a prova.

As investigações chegaram ao real autor dos fatos.

Em verdade, o vizinho havia feito toda aquela barbaridade com a criança, segundo o relato dela própria, acompanhada de psicóloga e demais profissionais aptos a cuidar do bem estar físico, mental e emocional da vítima.

O mesmo vizinho também incentivou e colaborou com o linchamento.

Ele foi julgado e condenado tanto pelo crime de estupro quanto pelo linchamento.

Ninguém mais foi condenado pela morte brutal de Bernardo.

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